meandros

sábado, março 18, 2006

quer andar de carro velho, amor?


Paixões de carona

— Carona? Tudo bem... – ela concordou. — Onde você mora? Eu vou para a Kennedy...

Não ter carro às vezes é meio chato. Principalmente quando se deseja chegar em qualquer lugar em específico.

— Eu moro longe, perto do Barigui. Mas estou indo bem pra lá agora! – minto.

A gente fica na dependência dos ônibus e seus horários imprevisíveis. Outra saída é correr atrás de caronas. Nada que um pouco de cara-de-pau e insistência não consiga. Eu pessoalmente não aprecio muito essa última.

— Opa! Então vamos – ela disse apanhando a bolsa.

Porém, como estou há muito tempo sem carro posso dizer que já estou acostumado. É claro que penso em um dia comprar um, assim como todo mundo. Antigamente sonhava com os grandes conversíveis, estilo americano, como em Miami Vice onde os policiais entravam no carro sem precisar usar a porta. Mas essa fase extravagante passou e hoje se fosse escolher optaria por algo mais discreto.

— Só não repare no carrinho meio velho...

Que interessante, ela tem um carrinho meio velho.

— Velho? Claro que não... – tento amenizar.

Amenizar? Como se precisasse... todo mundo sabe que não há nada mais charmoso do que uma mulher bonita dirigindo um carrinho velho. Sim, mulher bonita e carro velho, estou falando sério! Esse tipo de coisa só não é divulgada senão geraria uma crime na indústria automobilística. As vendas dos carros-zero despencariam, todo mundo trocaria o Corsa pelo Passat.

— Vou visitar uma amiga que mora lá na Kennedy – explico.

— Humm... – ela diz toda concentrada manobrando o carro. Qualquer hora ela devia saber que fica linda fazendo baliza...

Por outro lado, duvido muito que a recíproca funcione. Pelo menos eu não sentia qualquer charme quando dirigia o Fiat 147 do meu irmão. A invisibilidade só não era completa por causa dos ruídos excessivos do carro, além da sensação de que as peças descolariam da lataria a cada instante.

— Em que altura ela mora? – ela pergunta.

— Olhe... eu não conheço tão bem assim a rua Kennedy – tento ganhar tempo. — Até onde você vai?

— Eu moro perto do Paraná Clube.

— Paraná Clube? Então eu vou até onde você for.

Certa vez me perguntaram o que tinha de interessante numa mulher bonita dirigindo um carro velho. Em primeiro lugar, é importante dizer que o carro não pode ser uma lata velha furada, é necessário que o veículo não chame mais atenção do que a motorista. Quando digo carro velho, falo dos veículos bem rodados, meio gastos, mas que ainda rodam. Um carro sem o apelo da beleza e modernidade, esses atributos podem ficar apenas com a motorista.

— E a sua amiga, onde ela mora?

— Na altura do supermercado Extra.

— Nossa, que longe! Por que você não me avisou que eu parava lá perto?

Parar lá perto e encurtar ainda mais essa viagem com tão agradável companhia? Claro que não! Inventei alguma história boba para justificar.

— Não, é que como eu não liguei para ela, não quero aparecer assim “do nada”. Eu vou andando um pedaço e dou um tempo para ela – bela mentira, hein?

— É realmente... – ela concorda parando o carro numa vaga para eu saltar. — Olha só, eu moro aqui pra cima – diz apontando para a rua que sai da esquina.

— Poxa, bom saber... é que eu venho muito para cá e posso pegar carona contigo, não ?

Nos despedimos brevemente e logo me vi a pé na rua Kennedy. Como eu ia dizendo anteriormente, não ter carro às vezes é meio chato. Fica difícil se locomover, os ônibus são imprevisíveis, os táxis caros. Mas uma coisa deve ser dita, para algumas ocasiões não ter carro é uma grande vantagem, principalmente para pegar carona com uma bela mulher num carro velho.