meandros

quinta-feira, abril 06, 2006

garrincha, a burrice única e as inteligências múltiplas

O texto abaixo escrevi no formato de artigo de divulgação científica para servir de modelo a um trabalho que solicitei aos meus alunos de Psicologia Cognitiva. Aproveitei para revisitar um fantasma, um material antigo sobre Inteligências Múltiplas que até hoje circula na internet e me valeu a única citação que conheço realizada a partir de um texto meu.

Taí:

É tempo de Copa do Mundo. Entre bonés e camisetas verde-amarelos, aumento da venda de televisores e bichinhos de pelúcia com o uniforme da seleção, sempre reaparecem nesta época as histórias das copas antigas. Entre as várias histórias, destaca-se uma com íntima relação com a compreensão que se tem da inteligência de acordo com cada época.

Em 1958, foi convocado pela Confederação Brasileira de Futebol para a Copa da Suécia, além de grupo de jogadores que incluíam Pelé e Garrincha, um dos pioneiros da Psicologia do Esporte no Brasil: João Cavalhaes. A função do psicólogo era mudar o perfil do jogador brasileiro. Todo atleta precisaria deixar de ser nostálgico, emotivo e temperamental, mas deveria ser capaz de suportar as pressões e cobranças presentes em um campeonato de tão grande porte.

Para conseguir esta façanha, João Carvalhaes começou realizando uma avaliação em todos os jogadores, que incluía uma avaliação da inteligência. Avaliar a inteligência em 1958 significava aplicar um tradicional teste de QI (Quociente Intelectual).

Garrincha, que estava no apogeu de sua carreira, após responder os testes ficou sabendo que seu Quociente Intelectual era irrisório, sendo classificado como débil mental. Por este motivo quase foi impedido de participar da Copa. Só conseguiu permanecer devido a um apelo de seu colega, o quarto-zagueiro Nilton Santos:

- Olha, doutor, está aí fora um sujeito que talvez não seja capaz de acertar o mais fácil desses testes. É o Garrincha. Por favor, doutor, tenha paciência com ele. Mesmo que erre tudo, aprove-o. Aprove-o, doutor, pois nós vamos precisar muito dele nesta Copa.

Felizmente o psicólogo o ouviu e o Brasil conseguiu sua primeira conquista em Copas do Mundo.

Ninguém duvida do talento que possuía Garrincha quando se encontrava no meio de um gramado com a bola nos pés. Todavia, o teste psicométrico de inteligência indicava Garricha como uma pessoa sem grandes chances de ser bem sucedido em sua vida profissional. O que não correspondeu à realidade. Fica claro o quanto esta noção de inteligência, fortemente atrelada ao desempenho escolar, muitas vezes não faz juz à realidade.

No entanto, a visão da inteligência humana pode ser diferente. Uma das teorias mais influentes sobre a inteligência hoje vem de Howard Gardner, psicólogo e professor norte americano. A novidade dentro da teoria de Gardner é considerar a inteligência (a capacidade de resolver problemas) como possuindo várias facetas. Tais facetas (que na verdade são talentos, capacidades e habilidades mentais) são chamadas de “inteligências”, no plural. Por isto sua teoria é, com razão, chamada de teoria das Inteligências Múltiplas.

Os testes tradicionais de QI medem apenas as capacidades lógica e lingüística, capacidades que normalmente são as únicas exigidas e avaliadas pelas escolas e, sem dúvida, as capacidades mais valorizadas em nossa sociedade. Gardner pretende considerar também as outras capacidades, as outras "inteligências" menos lembradas, para analisá-las em sua teoria.

São basicamente sete inteligências em sua teoria: a lógico-matemática (capacidade lógica e de raciocínio científico), lingüística (capacidade do uso da linguagem, seja ela escrita, falada ou através de outro meio), musical (reconhecimento de padrões de tons, incluindo sons do ambiente, e sensibilidade para ritmos e batidas), corporal-cinestésica (movimento físico e o conhecimento do corpo), espacial (capacidade de formar imagens mentais e manipulá-las), interpessoal (habilidade de trabalhar cooperativamente com outros num grupo) e intrapessoal (relacionada aos estados interiores do ser, à auto-reflexão, à metacognição).

Garrincha sem dúvida não possuia nenhum destaque nas inteligências lingüística e lógico-matemática. Teria dito durante a comemoração da conquista dessa Copa: "Campeonatinho mixuruco, nem tem segundo turno!" No entanto, o craque das pernas tornas foi um verdadeiro gênio da inteligência corporal-cinestésica. Inteligência esta que passou desapercebida pela avaliação psicológica da época.

Vale lembrar ainda que, segundo a teoria de Gardner, as inteligências agem de forma integrada. Um alto nível de capacidade na inteligência corporal-cinestésica apenas, por exemplo, não asseguraria a ninguém um sucesso como jogador de futebol. Seria necessário também um bom desenvolvimento da inteligência espacial para realizar bons passes e chutes a gol e também inteligência interpessoal desenvolvida para um bom relacionamento com os companheiros, os adversário e a imprensa. Estas três inteligências agindo de forma integrada provavelmente possibilitariam uma maior chance de sucesso no esporte. Todavia não seria necessário, neste caso, um bom desempenho da inteligência lógico-matemática, por exemplo, com bem demonstrou Garrincha.

Quantos jogadores de nossa seleção atual alcançariam um bom desempenho em uma avaliação de inteligência? Em uma perspectiva tradicional, não se sabe. Agora, se inteligência é a capacidade de resolver problemas e o problema é superar as melhores equipes de mundo sem Garrincha, Pelé e companhia... esperamos que todos.

1 Comments:

  • muito legal a iniciativa do texto, e o lembrete do 'fantasma'. Até hoje, ele faz muito sucesso

    By Anonymous catatau, at 12:29 AM  

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