meandros

segunda-feira, abril 24, 2006

gosto tanto de te ver, leãozinho



Nesta semana o assunto por aí é a declaração do Imposto de Renda. Quem deve declarar, quem deve permanecer em silêncio e, principalmente, como diminuir a bocada do Leão e aumentar a restituição, se for possível.

Trocam-se dicas e macetes sobre dependentes, notas fiscais, formulários simples e compostos, trocam-se notícias sobre a temida malha fina que pega peixes grandes e alguns pequenos que são soltos novamente para que cresçam e possam ser pescados novamente.

Não quero posar de falso moralista. Se escrevo este texto é porque tenho pouco a pagar para a Receita Federal. Se tivesse muito, provavelmente contribuiria na conversa.

Mas isto me incomoda por duas razões.

A primeira é de ordem econômica. Entendo tanto de economia quanto de química orgânica, mas me arrisco. Todos falam em distribuição de renda. O Brasil é um país com um dos menores (ou piores, o que dá no mesmo) índices de distribuição de renda, diz-se. No melhor estilo do Hobbin Hood, entendo que distribuir renda significa tirar dos ricos para dar aos pobres.

Como tirar dos ricos e dar aos pobres sem promiscuidade e/ou modelitos verdes com penas no chapéu? Impostos justos. Ok, ok, mas nossos impostos não são justos e achatam a classe média, etc., etc... Mas que é preciso tirar dos ricos não há dúvidas e para isto é preciso que não haja sonegação nos grandes montantes de renda.

A segunda razão é de ordem moral. Uma vez perguntaram a Jesus se os impostos para o Império Romano deveriam ser pagos. Perceba que o Império Romano era muito pior que qualquer Império Americano e que não trazia nada além do que espoliação a Judéia, Galiléia e Samaria. Dai a César o que é de César, foi a resposta do jovem galileu.

Sem apelar para convicções religiosas, a questão é mais profunda e envolve coerência. Alguém que sonega o imposto na cara dura não pode se queixar de mensalões, dancinhas da pizza ou qualquer tipo de desvio de dinheiro. Estando do lado de cima de nossa sociedade hierárquica, quem garante que não faria o mesmo? Só pode garantir quem, com todas as razões para o contrário, permaneceu ético e coerente com seus princípios (o que dá no mesmo) e não tentou passar ninguém para trás no melhor jeitinho brasileiro.

Repito, não estou posando de santo de pau oco. Tenho lá minhas incoerências, minhas transgressões pequenas e grandes. Mas este assunto me incomoda.

Assim como incomoda o lugar-comum, "se sobéssemos que o dinheiro é bem aplicado...". Ao menos para isto vejo uma saída.

Existe uma opção de realizar doações do imposto de renda (que até certo de ponto é dedutível) ao Fundo da Criança e do Adolescente de sua cidade ou entidades cadastradas pela prefeitura de sua cidade. Doar para entidades é uma alternativa bem interessante, pois é possível com clareza e transparência acompanhar a aplicação do dinheiro. Se quiser posso sugerir algumas em que confio.

Quem sabe para o ano que vem é uma boa idéia.