meandros

terça-feira, abril 18, 2006

três pontos (3,0) na média!

Apresento um artigo muito perspicaz e pertinente de meu colega de neuropsicologia e docência, Eugênio Pereira de Paula Júnior:

Vale nota? Tem certificado?: Uma reflexão sobre o “capitalismo” acadêmico.

Nestes 10 anos de vida docente, nos 30 de vida discente e com a ajudinha de alguns pensadores percebi que no contexto da educação atual existe uma “febre” pelos certificados e titulações. No velho oeste a febre do ouro levou muitos incautos ao ouro de tolo (Pirita) e, conseqüentemente, ao desastre e à ruína. Os filmes de faroeste não trazem a real proporção que tal febre alcançou e nem quantas pessoas pereceram ingenuamente, na busca da riqueza fácil.

Nos dias atuais vejo que a febre da titulação se abate sobre outros incautos. Vejo muitos alunos, profissionais e até professores sedentos por um certificado. Vejo professores e promotores de congressos dizendo: “vai ter certificado para quer for”. Em palestras, vejam ! Palestras sim!, encontrei alunos comentando: “vão dar certificados? senão eu não vou!”. Vi, e sei que aqui alguém também já viu, muitos participantes de congressos entrarem no curso, assinarem a lista de presença, dizer: “já garanti o certificado” e saírem em seguida. Aqui, nesta semana acadêmica, vemos um exemplo disto, o certificado vale presença se você apresentá-lo ao professor na semana que vem.

Talvez esta visão “mercenária” da titulação seja reflexo de uma cultura muito arraigada na nossa academia, a cultura da nota em primeiro ligar. É comum ouvir de meus alunos frases como: “o trabalho vale nota?”, “quanto vale a prova?”, “quanto eu tenho que tirar?” Diante disto convido-os a uma reflexão e pergunto: “aluno estuda ou contabiliza?”. Os alunos pensarem que nota resolve me escandaliza menos quando vejo, nós, professores correndo atrás de pontinhos ou décimos para aprovar ou reprovar um aluno... E talvez seja ingenuidade pensar que no mundo capitalista em que vivemos isto pudesse ser diferente.

Estamos na cultura do Ter, onde a posse e a ostentação estão acima do Ser. O material, as coisas, estão acima do humano. Se você tem você é se não tem, mesmo sendo não é.

A cultura meritória subverte a motivação e o desejo humano. A motivação que era e deveria ser intrínseca, deu lugar à motivação extrínseca. Vemos que esta lógica já se desenvolve cedo na escola com o exemplo dos vestibulinhos, ou seja, uma criança de seis anos já tem uma meta anterior ao aprender. Estudos (Bzuneck, 2000) têm demonstrado que não é saudável nos pautarmos apenas por uma delas. E é isto que quero denunciar, esta exacerbação da motivação extrínseca, este mercenarismo que nos desumaniza. É tempo de buscar o equilíbrio motivacional, dando mais atenção aos motivos subjetivos para nossas ações. Hoje só fazemos algo pensando: “e o que eu ganho com isto?” Ou “qual vai ser minha recompensa?”. Vejo que tal atitude promove a omissão e o mercenarismo. A omissão vem quando deixamos de fazer algo que nos é de competência pela simples ausência do prêmio ou da recompensa. O mercenarismo decorre de uma visão mesquinha onde nosso suor passa a ter um valor maior se for premiado – geralmente por alguns centavos - e caímos na lógica do capital – O mercenário não deixa de ser um proxeneta.

Nietzsche, o médico da civilização, coitado morreu deixando sua paciente moribunda, já advertia sobre a ilusão dos títulos, prêmios e reconhecimento. Para ele o valor das coisas deve estar na ação de fazer algo. Fazer é a essência da glória.

A vida não dá diploma, mas exige competência. A faculdade dá um diploma, em alguns casos ele é vendido, mas isto garante a competência que ele diz ter? Ouro de tolo!

Mas antes que você, ávido por certificados, saia correndo daqui por considerar estas idéias como asneiras, gostaria de lembrar três personagens da história... Jean Paul Sastre em 1964, é eleito o Prêmio Nobel de Literatura, mas ele o recusa. Receber a honraria significaria reconhecer a autoridade dos juízes, o que considera inadmissível concessão. Marlon Brando também recusou um oscar em 1972 (The Godfather) e Emil Cioran que, acompanhado de Nietzsche, denunciava as ilusões da humanidade.

Numa vertente mais otimista, dependendo da interpretação é claro, Freud em Toten e Tabu explicava a necessidade humana de ter algo para sustentar e justificar sua existência, assim o certificado, como as medallas, troféus, estatuas seriam totens portáteis que usamos para simbolizar nossas conquistas e nosso territorio. Em resumo, nosso narcisismo não se contém em apenas ser. È preciso exibirmos.

Em outra vertente, mais otimista ainda, do behaviorismo, explicaríamos o certificado como um reforço secundário que aumentaria a probabilidade de resposta, ou o operante de produção do trabalho. Mas Skinner advertia que o reforço deve estar na tarefa em si, no fazer. Em educação o que deve ser reforçador é o estudo em si e não as artificialidades da nota. “Quando aprendemos a viver, a própria vida é a recompensa”.

Numa cena da série Star Trek (localizar) o capitão J. L. Picard ao ser interpelado por quanto ele estava fazendo aquele determinado trabalho a resposta do capitão foi algo assim: “nao faço isto por dinheiro nem por honraria alguna, faço isto em prol da humanidade, em favor do progresso da espécie humana”. E nós ainda estamos aquí, correndo atrás de uns centavos e certificados.

Mas temos como nos livrar desta mentalidade? Só nos livramos daquilo pelo que lutamos contra. Vou fazer minha parte... meu certificado já está pronto? (rasgar o certificado). Talvez seja um gesto vão, mas isto vale mais para mim que qualquer certificado. Talvez você argumente que os certificados sejam necessários, pois oficializam e comprovam uma competência. É preciso comprovar? A resposta parece quase óbvia, mas o que um comprovante falso, mentiroso ou oco comprova? Que tal pensarmos em uma outra forma? Algumas empresas já fazem a seleção de funcionários por competência, onde a titulação não basta, é preciso mostrar que o que o papel diz que você saberia fazer é verdadeiro e não comprado de um mercenário ou camelô de esquina. Você já ouviu falar no Zé Moleza? (Site da Internet de onde se compra trabalhos acadêmicos prontos).

Mas não se preocupem, esta reflexão não cai na prova, não tem importância, não vale nota e você já tem o seu certificado garantido...


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BERNHOEFT, R. Trabalhar & Desfrutar: equilíbrio entre vida pessoal e profissional. São Paulo: Nobel, 1991.

BZUNECK, J. A. Motivar seus alunos: sempre um desafio possível http://www.unopar.br/2jepe/motivacao.pdf (acessado em 19/nov./2004)

CARVALHO, J. D. D. Totem e tabu: Uma reflexão sobre o complexo de Édipo na origem da civilização. http://www.cientefico.frb.br/Textos%20CienteFico%202002.2/PSciologia /Epistemologia/Temas%20Livres/Freud%201913/Totem%20E%20Tabu.pdf (acessado em 19/nov./2004)

MCLS http://www.mcls-rj.org/biosartre.htm (acessado em 18/nov./2004)

http://www.bullz-eye.com/entertainers/marlon_brando.htm (acessado em 18/nov./2004)

http://adorocinema.cidadeinternet.com.br/filmes/poderoso-chefao/poderoso-chefao.htm#Curiosidades (acessado em 19/nov./2004)

2 Comments:

  • legal esse texto! com certeza, não temos mais uma idéia de civilização para segui-la, salvo alguns gatos pingados cricas e birrentos. Nietzsche era um supremo otimista, que admirava as paisagens hostis, e menosprezava as adulações e mediocridades da Cidade.

    Quando Zaratustra veio à cidade anunciar o "último homem", o ápice da decadência, a única coisa que ouviu foi: onde está esse último homem, para que possamos cultuá-lo?

    By Anonymous Catatau, at 12:40 AM  

  • Gostei muito do teu texto. Saiba que ele me fez refletir bastante, me apresentou coisas novas e reforçou outras que já estavam comigo.

    By Anonymous Anônimo, at 7:01 PM  

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