meandros

terça-feira, agosto 22, 2006

relação

Revisitei um texto de uns cinco anos atrás sobre um dos livros que mais me influenciaram e resolvi re-escrevê-lo. Eis o resultado.

Eu te conhecia só de ouvir, agora meus olhos te viram.
Jó 42, 5


Se Deus é bom, por que existe o sofrimento humano? Da busca por esta resposta surgiu do antigo povo de Israel o livro de Jó.

Sem querer individualizar um livro de coletividade, em Jó é possível comparar a relação da humanidade com o sagrado com as relações humanas amorosas. Pois bem, no início de um namoro, por exemplo, a paixão é uma lente com a propriedade de minimizar os defeitos da pessoa amada e maximizar suas qualidades. Mais tarde, deixando lugar para o amor, tal lente vai perdendo força e uma relação mais consolidada e realista acontece (caso a relação não possua miopia, hipermetropia ou astigmatismo). Assim, tal qual em uma relação amorosa, a concepção de Deus também parece estar associada com a qualidade de relação da humanidade com esta divindade.

O povo de Israel aprendeu a ver a presença divina na história e a transmiti-la oralmente e, mais tarde, em registros escritos. Daí nasceu o Antigo Testamento. No livro de Jó –verdadeira pérola do Antigo Testamento- é possível então ler duas maneiras da manifestação divina em relação à questão do sofrimento, de acordo com a época em que foram escritas e, portanto, da maturidade do povo em relação ao sagrado.

A primeira maneira de entender Deus no livro de Jó é chamada de “Teologia da Retribuição” ou “Teologia da Prosperidade” e é parecida com a paixão: simples, intensa e ingênua. Realmente é a parte mais agradável e fácil do livro. Trata-se dos dois primeiros capítulos (1,1 – 2,13) e dos últimos versículos do livro todo (42, 7-17). Escrito em prosa, é uma história completa que apresenta um Jó bastante passivo e conformista que, após descobrir que além das alegrias, o sofrimento também provém de Deus, aceita tudo com paciência e resignação. Deus então o recompensa pela sua atitude dando-lhe em dobro o que havia perdido.

Fica nítida a imagem nestes trechos antigos do livro que os ricos, detentores de posses e saúde foram abençoados por Deus e que os pobres estão recebendo o castigo merecido em sua miséria, doença e dor. Ser fiel a Deus significava seguir seus mandamentos para, assim, ser abençoado com posses e saúde. Este era o ensinamento popular daquele tempo em que o livro foi escrito. Daquele tempo? Acrescente “encostos” como origem de todos os males e episódios de euforia coletiva que teremos, então, boa parte da manifestação religiosa atual no Brasil.

Contudo, os outros capítulos do Livro de Jô escritos posteriormente, agora em verso, mostram um Jó bastante diferente. Questionador e crítico (como os que amam de verdade), Jó rebate as intervenções realizadas pelos seus “amigos” que apresentam argumentos pró-“Teologia da Prosperidade”. Não aceita que o mal venha de Deus, mas sim da má administração dos poderosos (reis, governantes, nobres, capatazes). O autor sagrado não pretende difundir a teologia em voga, mas questioná-la, mostrando que o relacionamento do povo com Deus já estava diferente...

Na cultura judaico-cristã, Deus mostra-se maior do que é possível imaginá-lo. Ele se dá a conhecer e seu conhecimento é gradual, tal qual em qualquer relacionamento. Pergunto se houve hoje um retrocesso, esquecendo-se desta postura mais íntima com o sagrado, sem a intenção de trocas comerciais e a garantia de sucesso.

Independente das origens do sofrimento, como o cristianismo prosseguirá? Deus será feito como um comerciante que deve ressarcir as perdas e pagar pelos atos de caridade (esperando logo a devolução em dobro que Jó recebeu ao final da história) ou como um companheiro de viagem no caminho incerto mas cujo destino será seu Reino?

2 Comments:

  • Mui bem Leandro!

    Continue caminhando pelas veredas....

    Abraço,

    Marcos César

    By Anonymous Marcos César, at 5:56 PM  

  • Muito bom, Leandrão!

    não sabia que o livro foi escrito em duas etapas principais, e que foi 'recheado' com tradições posteirores. Sabia, contudo, que o livro de Jó serve precisamente para refutar a teoria da retribuição temporal.

    Dentro do teu texto, podemos concluir o seguinte:

    1 - ou certas religiões não possuem em suas Bíblias o Livro de Jó;

    2 - ou não possuem teologia alguma.

    By Anonymous catatau, at 7:50 PM  

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