meandros

sexta-feira, outubro 27, 2006

chimarrão

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Disso podemos nos orgulhar. O McDonald's está em todo o mundo, a Coca-Cola também, mas o chimarrão continua sendo autenticamente gaúcho.

A pergunta é: por quê? Porque não aconteceu com a erva-mate o mesmo que com o café e o tabaco, transformados em "commodities" globais?

Exatamente por isso, porque o chimarrão não é cômodo. A térmica dispensa o fogo e o trempe, mas, de qualquer modo, preparar a infusão continua requerendo elaborado ritual, muito mais elaborado do que extrair um cigarro do maço e acendê-lo. Não houve maneira de industrializar o chimarrão como foi feito com o café, com o cacau, com o tabaco e até mesmo com a cocaína.

Sim, há o chá de mate, e é uma bebida agradável, mas é uma coisa bem diferente. A cultura do chimarrão é uma cultura artesanal. Mais do que isso, ela não está associada a nenhum dos valores da sociedade competitiva, de consumo. Café e coca são estimulantes, o cigarro, ao menos em uma época, foi símbolo de status, o chocolate era até considerado afrodisíaco. O modesto mate não tem essa aura. É verdade que ganhou fama de diurético, mas, com a quantidade que se toma, teria de ser diurético mesmo, e, além disso, quem precisa urinar tanto?

Por outro lado, pesou sobre o chimarrão a suspeita de que estivesse associado ao câncer de esôfago. Isso, felizmente, não se confirmou. Os fumantes que tomam mate estáo mais sujeitos à doença, mas isso se deve à forma de efeitos da água quente e das substâncias cancerígenas do tabaco. Se for o caso, é preciso larga o cigarro. O que seguramente será um benefício.


Não é preciso atribuir ao mate poderes medicamentosos. Seu mérito é de outra natureza: congrega as pessoas, estimula o sentido de camaradagem. O que tem óbvios benefícios emocionais.

Num mundo ameaçado pela homogeneização, a cultura gaúcha, teimosamente, gloriosamente, sobrevive. O que é muito bom. Identidade é algo a ser preservado, inclusive por se tratar de componente importante da saúde mental. Melhor tomar chimarrão do que recorrer aos psicotrópicos como forma de preencher o vazio existencial."


Moacyr Scliar

4 Comments:

  • uau! que texto legal!

    Isso mesmo, chimarrão como um agente socializador, como ritual, como terapia, como consumo que foge ao mercado, enfim, como um prazer gostoso da vida.

    mto bom!

    By Anonymous catatau, at 10:18 PM  

  • e como diz o dizer: chimarraõ já é gostoso e mais gostoso ainda fica, se é cevado e servido por mão de moça bonita!

    By Anonymous catatau, at 10:19 PM  

  • Não vejo lost mas acabo de indicar as tuas tirinhas para um amigo "viciado" na série... ;)

    Esse texto sobre chimarrão é uma agradavel surpressa! Como eu já declarei aqui adoro chimarrão, e acredito que o seu ponto mais positivo é justamente a união que ele proporciona... tem uma imagem que sempre me enternece é ver de manhã rodas de pessoas tomando chimarrão ao sol para se esquentar, ou a familia ao redor do fogão ou na varanda sorvendo o sabor "amargo de saudade" da ilex-paraguarienses quando chimarrão... Pensam em chimarrão é viajar em sabores, saudades e lembranças...

    E uma surpressa também é encontar o Moacyr Scliar!!! Pela primeira vez li livros dele esse ano (A mulher que escreveu a bibilia e Os leopardos de Kafka). Gostei deveras dos dois. A sua escrita fluida e que não cai em cliches é deliciosa!

    Mas encherro o comentário por aqui, porque está na hora do chima...

    Um abraço dessa tua amiga paranaense -quase-gaúcha rs

    By Anonymous _Maga, at 3:46 PM  

  • Marcela,

    Gosto bastante do Moacyr Scliar. Seus textos sempre valema a pena. Recomendo bastante uma coletânea de contos dele publicada pela companhia das letras. Um melhor q o outro.

    By Blogger Leandro, at 10:46 PM  

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